Energia na indústria: tecnologias para reduzir custos operacionais.

As principais tecnologias para reduzir custos operacionais com energia na indústria envolvem uma abordagem dupla: eficiência técnica e gestão comercial.

Tecnicamente, destacam-se a modernização de motores (com inversores de frequência e modelos de alta eficiência), a recuperação de calor residual (cogeração) e a implementação de sistemas de gestão de energia (SGE) baseados em IoT.

Comercialmente, a tecnologia de gestão mais impactante é a migração para o mercado livre de energia (ACL).

Essa migração permite a negociação direta de contratos, oferecendo preços mais competitivos e previsibilidade contra a volatilidade do mercado regulado.

O peso da energia na competitividade industrial

Para o setor industrial, a energia elétrica não é apenas uma utilidade; é um dos principais insumos de produção e um componente crítico dos custos operacionais.

Em indústrias eletrointensivas, como a metalurgia, química, siderurgia e mineração, a fatura de energia pode representar uma das maiores fatias do custo final do produto.

Portanto, qualquer flutuação no preço da energia ou qualquer ineficiência no seu uso impacta diretamente a margem de lucro e a competitividade da empresa no cenário nacional e internacional.

Diante da pressão por sustentabilidade (agenda ESG) e da necessidade de otimização de custos, a adoção de tecnologias de eficiência energética deixou de ser uma opção e tornou-se uma necessidade estratégica de sobrevivência.

A boa notícia é que o avanço tecnológico, tanto em hardware quanto em software, oferece um arsenal de soluções.

Essas soluções vão desde a otimização de um único motor até a reestruturação completa de como a energia é comprada e gerenciada, como veremos a seguir.

A base da eficiência: otimização de máquinas e processos

O “chão de fábrica” é onde a maior parte da energia industrial é consumida e, consequentemente, onde residem as maiores oportunidades de economia.

O foco recai sobre dois grandes grupos de consumidores: sistemas motores (que movimentam tudo) e sistemas térmicos (que aquecem e resfriam).

A tecnologia moderna permite otimizar ambos de forma precisa.

A simples substituição de equipamentos obsoletos pode gerar economias substanciais.

No entanto, a verdadeira eficiência vem da integração de hardware inteligente com uma gestão de processos baseada em dados.

Otimização de sistemas motores e ar comprimido

Motores elétricos são a força motriz da indústria, mas também grandes consumidores de energia.

  • Motores de alta eficiência (IR3, IR4, IR5): A substituição de motores antigos (IR1 ou IR2) por motores de alto rendimento é uma das ações com retorno mais rápido.
  • Inversores de frequência (VSDs): A tecnologia mais impactante para motores, os inversores (ou variadores de velocidade) ajustam a rotação do motor à demanda real do processo (em bombas, ventiladores, esteiras), evitando o consumo máximo contínuo.
  • Sistemas de ar comprimido: Frequentemente chamados de a “utilidade mais cara” da indústria, o foco aqui é a detecção e correção de vazamentos, que podem representar perdas significativas da energia gerada.
  • Redimensionamento de motores: Evitar o uso de motores superdimensionados para a tarefa, pois eles operam com baixa carga e eficiência muito reduzida.
  • Manutenção preditiva: Usar tecnologias como análise de vibração e termografia para identificar problemas em motores (como desalinhamento ou falha de rolamento) antes que eles causem aumento de consumo e falhas.
  • Transmissões eficientes: Utilizar redutores de velocidade de alta performance e sistemas de transmissão direta, eliminando perdas em polias e correias.

Eficiência em processos térmicos e utilidades

Em muitas indústrias (química, alimentícia, têxtil), o uso de calor (vapor) e frio (refrigeração) é tão relevante quanto o consumo elétrico.

  • Recuperação de calor residual (Waste Heat Recovery): Instalar trocadores de calor para capturar o calor perdido em chaminés de fornos, caldeiras ou compressores e reutilizá-lo para pré-aquecer água ou ar.
  • Isolamento térmico avançado: Garantir que todas as tubulações de vapor, linhas de refrigeração, fornos e estufas estejam perfeitamente isolados com materiais de alta performance.
  • Otimização de caldeiras: Modernizar caldeiras, otimizar a relação ar-combustível em queimadores e instalar economizadores para aproveitar o calor dos gases de exaustão.
  • Cogeração (CHP – Combined Heat and Power): Uma tecnologia de alta eficiência onde a indústria gera sua própria eletricidade (com gás natural, biomassa) e aproveita o calor residual do processo de geração para produzir vapor ou água quente.
  • Gestão de sistemas de vapor: Instalação de purgadores de vapor eficientes e manutenção constante para evitar vazamentos, que são perdas diretas de energia térmica.
  • Torres de resfriamento e chillers: Otimizar a operação de sistemas de refrigeração industrial, garantindo a limpeza das torres e a correta calibração dos chillers.

A revolução dos dados: sistemas de gestão de energia (SGE)

De nada adiantam os melhores motores e caldeiras se a indústria não souber como e quando eles estão consumindo energia.

A “tecnologia” mais transformadora das últimas décadas é o software de gestão.

Os sistemas de gestão de energia (SGE), ou em inglês, energy management systems (EMS), são o cérebro da eficiência energética.

Eles conectam a internet das coisas (IoT) ao chão de fábrica, instalando medidores inteligentes em pontos críticos da planta.

Esses sistemas coletam dados em tempo real e os transformam em informação acionável, sendo a base para a certificação ISO 50001, que estrutura a gestão de energia de forma contínua.

A inteligência por trás da economia

Os SGE são muito mais do que planilhas de consumo; eles são plataformas ativas de gestão.

Esses sistemas permitem o rateio preciso dos custos de energia por centro de custo, linha de produção ou até mesmo por produto, revelando onde está o verdadeiro “ralo” energético.

Eles monitoram a curva de demanda em tempo real, alertando os gestores sobre o risco de ultrapassar a demanda contratada e pagar multas.

A tecnologia de SGE também é fundamental para a manutenção preditiva, cruzando dados de consumo de energia com dados de vibração ou temperatura para prever falhas em equipamentos.

Através de inteligência artificial e machine learning, os SGE mais avançados podem identificar padrões de desperdício que seriam invisíveis a um operador humano.

A plataforma de SGE fornece a linha de base de consumo (baseline) essencial para medir o retorno de qualquer projeto de eficiência.

É essa tecnologia que permite à indústria gerenciar ativamente seu fator de potência, evitando multas por energia reativa.

Em suma, o SGE transforma o custo de energia de um número reativo (na fatura) em um indicador de performance proativo (em um dashboard).

A tecnologia comercial: mercado livre de energia

Tão importante quanto a tecnologia aplicada no “chão de fábrica” é a tecnologia de gestão aplicada na “sala de diretoria”.

A migração para o mercado livre de energia (ACL) é uma poderosa estratégia tecnológica-comercial para reduzir custos operacionais.

CaracterísticaMercado Cativo (ACR)Mercado Livre de Energia (ACL)
Poder de EscolhaNenhuma. A indústria é obrigada a comprar da distribuidora local.Total. A indústria negocia e escolhe seu fornecedor de energia (gerador ou comercializadora).
Preço da EnergiaRegulado pela ANEEL. A tarifa (TE) é definida em leilões e repassada ao consumidor.Negociado livremente. O preço é definido em contrato (prazo, volume) com base na oferta e demanda.
PrevisibilidadeBaixa. A indústria está sujeita às bandeiras tarifárias (vermelha, amarela), que são voláteis e imprevisíveis.Alta. Os contratos no ACL geralmente têm preços fixos e de longo prazo, eliminando o risco das bandeiras.
Gestão de RiscoReativa. A indústria não tem controle sobre aumentos tarifários ou bandeiras.Proativa. A indústria pode travar seus custos de energia por anos, dando previsibilidade ao orçamento.
Sustentabilidade (ESG)A indústria consome o “mix” da distribuidora, sem rastreabilidade da fonte.A indústria pode optar por contratar energia 100% renovável (eólica, solar, PCH), obtendo certificados (I-REC) e melhorando seu rating ESG.

Fonte: Baseado nas regras de comercialização da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) e nos dados de mercado da ABRACEEL (Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia). Links: https://www.aneel.gov.br/ e https://www.abraceel.com.br/pt/mercado/sobre

Como a tabela demonstra, o mercado livre de energia é uma ferramenta de gestão de risco e custo.

Ele permite que a indústria trate a energia como um commodity estratégico, e não como uma conta de consumo passiva.

As mesmas tecnologias de monitoramento (SGE) que ajudam na eficiência interna são cruciais para o sucesso no ACL, pois a indústria precisa prever seu consumo para contratar os volumes corretos.

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Indústria 4.0 e a integração total da energia

A convergência da tecnologia de automação industrial com a gestão de energia é o pilar da Indústria 4.0.

Nesse cenário, os sistemas de gestão (SGE) estão totalmente integrados ao sistema de planejamento de produção (ERP) da empresa.

Isso permite, por exemplo, que a fábrica module sua produção com base no custo da energia.

Em um dia com o preço da energia no mercado de curto prazo (PLD) muito alto, o sistema pode decidir adiar processos eletrointensivos não essenciais.

Essa integração total entre produção e energia é o nível máximo de eficiência operacional.

O uso de digital twins (gêmeos digitais) permite simular o impacto energético de mudanças na linha de produção antes que elas aconteçam, otimizando o layout e os processos para o menor consumo possível.

Eletrificação e geração própria como vetores de custo

Duas tendências tecnológicas estão mudando o perfil de consumo industrial: a eletrificação e a geração distribuída (ou autoprodução).

A eletrificação consiste na substituição de processos que usavam combustíveis fósseis (como fornos a gás ou óleo) por tecnologias elétricas eficientes (como fornos a indução ou aquecimento por infravermelho).

Embora possa aumentar o consumo de eletricidade, essa troca reduz a pegada de carbono e elimina a volatilidade do preço dos combustíveis fósseis.

Paralelamente, a tecnologia de geração própria, especialmente usinas solares em telhados ou autoprodução (via PPA ou usinas remotas), permite que a indústria reduza sua dependência da rede.

Ao gerar parte da sua própria energia, a indústria se protege contra custos de distribuição e transmissão, reduzindo ainda mais o custo operacional total.

Transforme seu custo industrial em ativo competitivo

A complexidade da gestão de energia na indústria exige parceiros que entendam tanto de tecnologia de eficiência quanto de estratégia de mercado.

A migração para o mercado livre de energia é a decisão que destrava o maior potencial de redução de custos, mas ela precisa ser feita com base em dados de consumo precisos.

A Lead Energy é especialista em analisar o perfil da sua indústria e estruturar a migração para o mercado livre de energia de forma segura e econômica.

Nossa consultoria garante que sua empresa utilize todas as ferramentas, técnicas e comerciais, para transformar o que hoje é um custo operacional em uma vantagem competitiva duradoura.

Perguntas Frequentes

O que é um inversor de frequência (VSD)?

É um dispositivo eletrônico que permite controlar a velocidade (rotação) de um motor elétrico.

Ao ajustar a velocidade do motor à necessidade real do processo (ex: um ventilador que não precisa operar a 100% o tempo todo), ele gera uma economia de energia substancial.

O que é cogeração (CHP)?

É o processo de produzir simultaneamente duas formas de energia (eletricidade e calor útil) a partir de uma única fonte de combustível (como gás natural ou biomassa).

É altamente eficiente porque aproveita o calor que seria desperdiçado em uma usina elétrica tradicional, usando-o para processos industriais, como gerar vapor.

Minha indústria (Grupo A) é obrigada a ir para o Mercado Livre?

Não, a migração para o mercado livre de energia é uma opção e um direito de todo consumidor do Grupo A (alta tensão), mas não é uma obrigação.

O que é a ISO 50001 e como ela se relaciona com tecnologia?

A ISO 50001 é a norma internacional para sistemas de gestão de energia (SGE).

Ela não é uma tecnologia, mas um framework de gestão (baseado no ciclo PDCA) que exige monitoramento, medição e análise de dados para promover a melhoria contínua da eficiência energética.

As tecnologias de SGE e os medidores de IoT são as ferramentas que viabilizam a implementação eficaz da ISO 50001.

A recuperação de calor residual é aplicável a qualquer indústria?

Ela é mais aplicável em indústrias que possuem processos com altas temperaturas, como siderúrgicas, cimenteiras, vidrarias, químicas e alimentícias (com grandes fornos ou caldeiras).

Qualquer processo que libere gases quentes ou líquidos quentes em chaminés ou tubulações tem potencial para essa tecnologia.

O que é um Sistema de Gestão de Energia (SGE)?

Um SGE (ou EMS) é uma plataforma de software e hardware (medidores) que coleta, monitora e analisa os dados de consumo de energia de uma planta em tempo real.

O objetivo é identificar desperdícios, ratear custos, gerenciar a demanda e fornecer dados para a tomada de decisão.

É a tecnologia que torna a gestão de energia proativa em vez de reativa.

Fontes