A variação do dólar impacta diretamente os contratos com energia de fronteira porque essas transações de importação de eletricidade são predominantemente indexadas ou faturadas na moeda norte-americana. Quando o real se desvaloriza, o custo de aquisição dessa energia (medido em reais) aumenta automaticamente, mesmo que o volume importado permaneça o mesmo.
Esse aumento de custo é repassado ao longo da cadeia, afetando os agentes do mercado livre de energia e, em muitos casos, o consumidor final.
O que define a energia de fronteira?
A energia de fronteira refere-se à eletricidade importada de países vizinhos com os quais o brasil possui interconexão elétrica, como paraguai, argentina e uruguai. O caso mais emblemático é a usina hidrelétrica de itaipu, um empreendimento binacional (brasil-paraguai) cuja tarifa é fixada em dólar americano.
Além de itaipu, o brasil realiza transações de intercâmbio de energia de curto e longo prazo com outros membros do mercosul, utilizando as estações conversoras de frequência. Essas operações são vitais para a segurança do sistema interligado nacional (sin), especialmente durante períodos de baixa hidrologia interna ou picos de demanda.
A regulação dessas importações é complexa, envolvendo a agência nacional de energia elétrica (aneel) e o operador nacional do sistema (ons), que autorizam as transações. A necessidade dessa energia externa expõe o setor elétrico brasileiro a um risco cambial que não existe na geração puramente nacional.
Essa exposição cambial é um fator crítico na gestão de portfólio dos agentes do setor.
A indexação cambial nos contratos de importação
A maior parte dos contratos de energia de fronteira utiliza o dólar como referência de preço. Isso ocorre porque os investimentos nas usinas e linhas de transmissão internacionais são frequentemente financiados em moeda estrangeira.
Os países exportadores, como o paraguai no caso de itaipu, exigem o pagamento em moeda forte para honrar seus próprios compromissos financeiros. A tarifa de itaipu, por exemplo, é calculada em dólar e paga dessa forma pela eletrobras.
Essa indexação transfere o risco da volatilidade cambial para o mercado comprador, neste caso, o brasil. Os agentes que dependem dessa energia precisam, portanto, monitorar o câmbio constantemente.
Riscos diretos da volatilidade cambial
A flutuação do dólar introduz uma camada de imprevisibilidade significativa para os compradores de energia:
- Aumento do custo de aquisição: a alta do dólar encarece imediatamente o megawatt-hora (mwh) importado, pressionando o caixa das distribuidoras e comercializadoras.
- Repasse para o PLD: o preço da energia importada influencia o custo marginal de operação (cmo) e, por consequência, o preço de liquidação das diferenças (pld), afetando todo o mercado.
- Desequilíbrio em contratos longos: contratos de compra de energia no mercado livre de energia que não preveem a variação cambial podem se tornar financeiramente inviáveis.
- Incerteza no planejamento orçamentário: empresas que consomem grandes volumes de energia perdem a previsibilidade de um dos seus custos fixos mais relevantes.
- Redução da competitividade: o aumento do custo da energia impacta diretamente o custo de produção da indústria nacional, tornando-a menos competitiva.
- Necessidade de hedge cambial: agentes do mercado são forçados a contratar instrumentos financeiros (hedge) para se proteger, adicionando um custo extra à operação.
Mecanismos de proteção e mitigação
Para gerenciar os riscos associados à energia de fronteira dolarizada, os agentes utilizam diversas estratégias:
- Contratação de hedge cambial: aquisição de derivativos financeiros (como nfd ou opções de câmbio) para travar o preço do dólar em operações futuras.
- Cláusulas de repasse contratual: inclusão de gatilhos nos contratos de venda de energia que permitem o reajuste automático dos preços com base na variação cambial.
- Diversificação do portfólio: priorizar a contratação de energia de fontes nacionais (hídrica, solar, eólica) para reduzir a dependência da importação.
- Monitoramento de mercado: acompanhamento intensivo das tendências macroeconômicas e geopolíticas que afetam tanto o câmbio quanto a disponibilidade de energia nos países vizinhos.
- Operações financeiras estruturadas: criação de produtos financeiros específicos que combinam a compra de energia com a proteção cambial em um único pacote.
- Negociação no mercado livre de energia: utilizar a flexibilidade do mercado livre de energia para ajustar rapidamente as posições de compra e venda conforme o cenário cambial.
Itaipu binacional: o principal vetor dolarizado
A usina de itaipu é, de longe, o maior e mais complexo exemplo do impacto cambial na energia brasileira. Embora seja uma fonte hidrelétrica, sua tarifa não é definida pela oferta e demanda como no mercado livre de energia, mas sim pelo custo do serviço da dívida de sua construção, que é dolarizado.
O tratado de itaipu estabelece que o brasil tem prioridade na compra da energia excedente do paraguai, e esse pagamento é feito em dólar. Isso significa que metade da energia gerada (a cota paraguaia) é, na prática, uma importação dolarizada.
Quando o dólar sobe, o custo de repasse dessa energia para as distribuidoras do sul, sudeste e centro-oeste (que são obrigadas a comprar essa cota) aumenta. Essa estrutura rígida cria um impacto inevitável que reverbera por todo o sistema.
A renegociação do anexo c do tratado de itaipu, que define essas bases financeiras, é um tema de extrema relevância estratégica para o futuro do preço da energia no brasil.
O impacto no mercado livre vs. mercado cativo
Os consumidores do mercado cativo (residencial e pequeno comércio) sentem o impacto da variação do dólar na energia de fronteira de forma indireta, mas certa. O custo da cota de itaipu é repassado anualmente pela aneel nas tarifas das distribuidoras, resultando em reajustes na conta de luz.
Já no mercado livre de energia, o impacto pode ser mais direto e imediato, dependendo da estrutura contratual do consumidor. Se uma comercializadora possui lastro em energia importada, ela inevitavelmente tentará repassar essa volatilidade nos seus preços de venda.
Os consumidores livres que possuem contratos indexados podem sofrer reajustes mensais baseados no câmbio. Por outro lado, o mercado livre de energia oferece a vantagem da previsibilidade, se o consumidor optar por contratos de longo prazo com preço fixo em reais, blindando-se dessa exposição.
Nesse cenário, a comercializadora assume o risco cambial e utiliza seus próprios mecanismos de hedge para garantir o preço acordado. A gestão desse risco é um dos principais diferenciais competitivos entre as empresas que atuam no ambiente de contratação livre.
Portanto, a migração para o mercado livre pode ser tanto uma exposição ao risco quanto a solução para ele, dependendo da assessoria e do tipo de contrato escolhido.
Relação entre risco cambial e segurança energética
A importação de energia não é apenas uma questão de preço, mas também de segurança para o sistema elétrico nacional. O operador nacional do sistema (ons) utiliza essa energia de fronteira para otimizar os recursos hídricos e garantir o suprimento em momentos críticos.
A tabela abaixo ilustra a interdependência entre os países e os pontos de intercâmbio, cujas transações são vulneráveis ao câmbio.
| Ponto de Interconexão | País Vizinho | Tipo de Energia (Principal) | Indexação Predominante |
| Itaipu Binacional | Paraguai | Hidrelétrica | Dólar (USD) |
| Garabi I e II | Argentina | Termelétrica / Hidrelétrica | Dólar (USD) |
| Uruguaiana | Argentina | Termelétrica (Ciclo Combinado) | Dólar (USD) |
| Rivera | Uruguai | Hidrelétrica / Eólica | Dólar (USD) |
| Melo | Uruguai | Hidrelétrica / Eólica | Dólar (USD) |
| Santa Elena/Roraima | Venezuela | Hidrelétrica (Guri) | Dólar (USD) – Operação Suspensa |
Fonte: https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/geracao/intercambio-internacional-de-energia-eletrica
A gestão dessa interdependência é um equilíbrio delicado entre confiabilidade e custo financeiro. Quando o dólar está muito alto, o ons pode optar por despachar termelétricas nacionais, mesmo que mais poluentes, se o custo em reais for menor que o da importação.
Essa decisão afeta diretamente o pld e a necessidade de acionamento de bandeiras tarifárias. Portanto, o câmbio é uma variável fundamental nas decisões operacionais que garantem que a energia chegue à tomada do consumidor.
A diversificação de fontes como estratégia de hedge natural
Diante da inevitável exposição cambial da energia de fronteira, a estratégia mais robusta para o brasil é a diversificação de sua matriz energética interna. Investir em fontes de energia renovável como solar, eólica e biomassa, cujos custos são denominados em reais (embora os equipamentos tenham componente importado), cria um “hedge natural” contra a volatilidade do dólar.
Quanto menos o país depender da importação para fechar suas contas energéticas, menor será o impacto do câmbio no preço final da eletricidade. O mercado livre de energia tem sido o principal indutor dessa expansão.
Ao contratar energia diretamente de usinas eólicas ou solares nacionais, os grandes consumidores travam seus custos em reais por longos períodos. Isso não apenas reduz o risco cambial, mas também fomenta a transição energética e a geração de empregos locais.
Essa independência energética reduz a pressão sobre o balanço de pagamentos do país, pois diminui a necessidade de enviar dólares para o exterior para pagar pela energia importada. A gestão estratégica do portfólio de energia torna-se, assim, uma ferramenta de proteção macroeconômica.
O futuro dos contratos de energia e o câmbio
A tendência global aponta para mercados de energia cada vez mais integrados regionalmente, o que pode aumentar a relevância da energia de fronteira. No entanto, a crescente digitalização e a sofisticação dos produtos financeiros devem alterar a forma como esses contratos são estruturados.
Espera-se o surgimento de contratos híbridos, que possam, por exemplo, ser parcialmente indexados ao dólar e parcialmente a índices nacionais, distribuindo melhor os riscos. A tokenização de ativos de energia também pode criar novas formas de negociação internacional menos dependentes do sistema financeiro tradicional.
O desafio para os gestores no mercado livre de energia será navegar essa complexidade, utilizando tecnologia para modelar cenários e tomar decisões de compra mais assertivas diante da volatilidade.
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Proteja sua empresa da volatilidade do dólar
A variação cambial não precisa ser uma ameaça constante aos custos operacionais da sua indústria ou comércio. A migração para o mercado livre de energia permite que sua empresa estruture contratos de longo prazo com preços fixos e em reais, eliminando o risco dólar da sua fatura de eletricidade.
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Perguntas Frequentes
O que exatamente é energia de fronteira?
Energia de fronteira é o termo utilizado para designar a eletricidade que o brasil importa de países vizinhos com os quais possui interconexão elétrica, como paraguai, argentina e uruguai. Ela é usada para complementar a geração nacional, especialmente em momentos de alta demanda ou baixa produção interna.
Por que os contratos de energia de Itaipu são em dólar?
Os contratos são em dólar porque a dívida para a construção da usina foi contraída majoritariamente em moeda estrangeira. A tarifa de itaipu é calculada para cobrir os custos de operação e o pagamento dessa dívida, sendo o dólar a moeda de referência estabelecida no tratado binacional.
O consumidor residencial (cativo) paga pela variação do dólar na energia?
Sim, o custo da cota de itaipu, que é dolarizado, é repassado anualmente pela aneel para as tarifas das distribuidoras, impactando a conta de luz de todos os consumidores cativos.
Como o mercado livre de energia ajuda a proteger do risco cambial?
O mercado livre de energia permite ao consumidor negociar contratos de longo prazo diretamente com geradores ou comercializadoras. Nesses contratos, é possível fixar o preço da energia em reais (r$) por vários anos. Ao fazer isso, a empresa transfere o risco da variação cambial para o seu fornecedor, ganhando total previsibilidade de custos.
O que é “hedge cambial” no setor de energia?
Hedge cambial é uma operação financeira realizada por agentes do setor (comercializadoras ou grandes consumidores) para se proteger da variação do dólar. Eles compram instrumentos no mercado financeiro (como contratos futuros de dólar) que compensam as perdas caso o preço da energia importada suba.
Toda importação de energia é ruim para o brasil?
Não, a importação de energia é uma ferramenta estratégica importante para a segurança do sistema elétrico, permitindo ao ons otimizar o uso dos reservatórios das hidrelétricas e evitar custos ainda maiores, como o despacho de termelétricas emergenciais. O problema não é a importação em si, mas a volatilidade do preço quando ela é indexada ao dólar. A gestão desse risco é o ponto-chave.
Fontes
Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). Intercâmbio Internacional de Energia Elétrica. Disponível em: https://www.gov.br/aneel/pt-br/assuntos/geracao/intercambio-internacional-de-energia-eletrica
Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Balanço Energético Nacional 2024. Disponível em: https://www.epe.gov.br/pt/publicacoes-dados-abertos/publicacoes/balanco-energetico-nacional-2024
Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Intercâmbio Internacional. Disponível em: https://www.ons.org.br/paginas/sobre-o-sin/intercambio-internacional
Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (ABRACEEL). Disponível em: https://www.abraceel.com.br/

