Empresas com múltiplas unidades podem centralizar sua gestão de energia adotando duas estratégias principais e complementares. A primeira é a unificação da aquisição de suprimentos através do mercado livre de energia, que permite consolidar os contratos de compra para todos os locais.
A segunda é a implementação de um sistema de gestão de energia (sge) centralizado, uma plataforma tecnológica que coleta, monitora e analisa os dados de consumo de todas as filiais em um único ambiente. Esta abordagem transforma dados fragmentados em inteligência acionável.
O desafio da gestão descentralizada
O principal obstáculo para empresas com operações geograficamente dispersas, como redes de varejo, franquias ou plantas industriais, é a fragmentação da informação. Cada unidade está ligada a uma distribuidora local diferente, cada uma com suas próprias tarifas, datas de faturamento e estruturas de cobrança.
Isso resulta em um esforço administrativo massivo, onde a análise de custos se torna reativa e imprecisa, dificultando a identificação de desperdícios ou a implementação de programas de eficiência energética em escala. A falta de uma visão consolidada impede que a empresa negocie seu volume total de energia, perdendo poder de barganha e oportunidades de redução de custos.
A gestão descentralizada também dificulta o acompanhamento de metas de sustentabilidade corporativa, já que o perfil de consumo de cada filial é uma caixa-preta. Essa complexidade operacional consome recursos que poderiam ser alocados na estratégia do negócio.
Essa fragmentação impede uma visão estratégica do insumo energia.
Unificação contratual no Mercado Livre de Energia
A centralização da gestão de energia começa pela unificação da compra do insumo. O mercado livre de energia é o ambiente que viabiliza essa estratégia de forma mais eficaz.
Ele permite que uma empresa negocie o suprimento de energia para todas as suas unidades simultaneamente, independentemente de estarem em diferentes áreas de concessão. Isso é feito através de mecanismos regulatórios específicos que facilitam a entrada de empresas multiunidades.
A consolidação da demanda de várias filiais permite que a empresa atinja o volume necessário para migrar ou obtenha melhores condições de preço. Existem duas modalidades principais para agregar essas cargas.
Mecanismos de agregação para migração
A regulamentação permite que unidades consumidoras somem suas demandas para acessar o ambiente de contratação livre:
- Comunhão de direito: permite que unidades de um mesmo grupo empresarial, identificadas pelo mesmo cnpj raiz (matriz e filiais), somem suas demandas para atingir os limites mínimos de migração estabelecidos pela regulação.
- Comunhão de fato: aplica-se a empresas localizadas em áreas contíguas, ou seja, que não são separadas por vias públicas, mesmo que possuam cnpjs distintos, permitindo que “vizinhos” se unam para migrar.
- Representação na ccee: após a migração, todas as unidades, mesmo que em locais diferentes, passam a ser representadas na câmara de comercialização de energia elétrica (ccee) por um único agente, centralizando as obrigações setoriais.
- Contrato de compra único: a empresa pode negociar um único contrato de compra de energia com um gerador ou comercializadora para atender à soma das demandas de todas as suas filiais, ganhando escala na negociação.
- Gestão de lastro consolidada: o agente representante faz a gestão consolidada do balanço energético, alocando o contrato de energia para cobrir o consumo agregado de todas as unidades.
- Flexibilidade contratual: permite a negociação de produtos flexíveis que se adaptam à sazonalidade do consumo agregado do grupo, como o varejo, otimizando a contratação e evitando penalidades.
A figura do comercializador varejista
Para empresas que buscam a máxima simplificação e centralização, o comercializador varejista é a solução definitiva:
- Representação total e simplificada: o varejista assume todas as obrigações do consumidor perante a ccee, eliminando a necessidade da empresa se tornar um agente e lidar com a burocracia do setor.
- Centralização do faturamento: o varejista recebe as medições de todas as unidades (mesmo de distribuidoras diferentes) e emite uma única fatura consolidada de energia, simplificando drasticamente o processo de pagamento.
- Sem necessidade de agregação para migração: a modalidade varejista é a principal porta de entrada para consumidores de alta tensão, permitindo a migração de unidades individualmente, sem a complexidade de somar demandas para atingir limites mínimos.
- Gestão de risco internalizada: o comercializador varejista assume os riscos de variação de consumo (sobras e déficits) das unidades, oferecendo um preço de energia estável e previsível para o cliente.
- Migração ágil: o processo de adesão ao mercado livre de energia através de um varejista é muito mais rápido e menos burocrático, ideal para empresas com muitas filiais.
- Foco no core business: a empresa delega toda a complexidade da gestão de contratos, medição e obrigações setoriais para um especialista, liberando sua equipe interna para focar na atividade principal do negócio.
Tecnologia como pilar da gestão centralizada
Apenas unificar a compra de energia não resolve o desafio de gerenciar o consumo de forma centralizada. Para isso, a tecnologia é indispensável.
A implementação de um sistema de gestão de energia (sge), ou energy management system (ems), é o segundo pilar dessa estratégia. Essas plataformas de software são projetadas especificamente para coletar dados de múltiplos pontos de medição em tempo real, independentemente da localização geográfica.
Elas se conectam aos medidores inteligentes (iot) instalados em cada unidade e consolidam as informações em um único dashboard acessível pela matriz. A partir daí, a gestão deixa de ser reativa, baseada em faturas passadas com semanas de atraso, e passa a ser proativa e baseada em dados.
A análise de dados permite comparar o desempenho entre filiais e identificar padrões de consumo.
Funcionalidades de um sistema de gestão de energia (SGE)
Um sge robusto oferece visibilidade e controle que são impossíveis de alcançar com planilhas e faturas descentralizadas. As plataformas modernas atuam na coleta, processamento e análise de grandes volumes de dados de energia, transformando medições brutas em inteligência de negócios.
Elas criam uma linha de base de consumo para cada unidade, permitindo que o gestor central identifique imediatamente qualquer desvio do padrão. A capacidade de criar alarmes automáticos para picos de demanda, consumo fora do horário ou fator de potência baixo é uma ferramenta poderosa para a manutenção preditiva e a rápida correção de falhas operacionais.
Esses sistemas também permitem a simulação de cenários futuros, como o impacto financeiro de uma nova tarifa de distribuição ou o retorno sobre o investimento da instalação de equipamentos mais eficientes em determinada filial. O sge é a ferramenta que permite ao gestor verificar se a energia contratada no mercado livre de energia está sendo usada da forma mais eficiente possível, conectando a compra ao consumo.
A centralização dos dados possibilita o rateio preciso dos custos de energia por centro de custo de forma automatizada, melhorando a contabilidade interna da corporação. Além disso, é uma ferramenta fundamental para a elaboração de inventários de emissões de gases de efeito estufa, automatizando o reporte de consumo para programas de sustentabilidade e relatórios esg.
Comparativo: gestão descentralizada vs. centralizada
A adoção de um modelo centralizado, que combina a estratégia de compra no mercado livre de energia com a tecnologia de um sge, altera fundamentalmente a relação da empresa com o insumo energia. A transformação vai da gestão administrativa e reativa para uma gestão estratégica e proativa.
A tabela abaixo resume as diferenças práticas entre os dois modelos de gestão para empresas multiunidades.
| Característica | Gestão Descentralizada (Mercado Cativo) | Gestão Centralizada (Mercado Livre + SGE) |
| Contratação de Energia | Múltiplos contratos cativos, um por unidade, com tarifas reguladas e impostas pela distribuidora local. | Contrato único ou portfólio de contratos negociados ativamente no mercado livre de energia para todas as unidades. |
| Faturamento e Pagamento | Dezenas ou centenas de faturas diferentes, com datas, formatos e vencimentos variados, gerando alta carga administrativa. | Faturamento consolidado (via comercializador varejista) ou gestão de faturas simplificada pelo agente representante. |
| Visibilidade do Consumo | Reativa. O consumo só é conhecido após a chegada da fatura física, semanas após o fato, impedindo ações corretivas. | Em tempo real. O software de gestão (sge) monitora o consumo instantâneo de todas as unidades 24/7. |
| Poder de Barganha | Nulo. A empresa é uma consumidora passiva das tarifas e bandeiras tarifárias definidas pela aneel. | Alto. A empresa negocia seu volume agregado de energia, podendo escolher fornecedores, preços, prazos e fontes. |
| Gestão de Eficiência | Difícil de implementar. Não há dados padronizados para comparar o desempenho entre unidades ou identificar desperdícios. | Otimizada. O sge permite benchmarking entre filiais, identificação de anomalias e gestão de metas de eficiência. |
| Sustentabilidade | Limitada ao “mix” de energia da distribuidora. Difícil comprovar a origem da energia consumida. | Escolha ativa de fontes renováveis (solar, eólica, biomassa), com rastreabilidade e certificação (i-rec) para metas esg. |
Fonte: Elaborado com base em informações da ABRACEEL (Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia) sobre as modalidades de contratação.
Essa transformação permite que a energia deixe de ser apenas um custo operacional imprevisível e se torne uma variável estratégica gerenciável. A gestão centralizada oferece previsibilidade de custos, uma vantagem competitiva crucial em mercados voláteis.
Dessa forma, a empresa ganha resiliência operacional e financeira para focar em seu crescimento.
A importância da governança na gestão centralizada
Implementar a tecnologia e migrar para o mercado livre de energia são os passos instrumentais, mas a centralização só se torna efetiva com uma estrutura de governança corporativa clara. A empresa precisa definir quem será o responsável pela gestão centralizada da energia, criando um ponto focal.
Isso geralmente envolve a criação de uma área de energy management ou a atribuição dessa responsabilidade a um gestor de facilities ou suprimentos com apoio de uma consultoria especializada. Esse gestor central será responsável por monitorar os dashboards do sge, identificar oportunidades, negociar os contratos no mercado livre de energia e reportar os kpis para a alta direção.
Também é papel dessa gestão centralizada disseminar a cultura de eficiência energética para as pontas, ou seja, para os gerentes de cada unidade ou filial. As filiais deixam de se preocupar com a compra da energia e a burocracia das faturas, mas se tornam corresponsáveis pelo uso eficiente dela, muitas vezes com metas atreladas à sua performance.
Estabelecer metas de consumo para cada unidade, baseadas nos dados históricos e benchmarks fornecidos pelo sge, cria um ciclo de melhoria contínua e engajamento das equipes locais. Sem uma estrutura de governança definida, as ferramentas tecnológicas mais avançadas e as vantagens contratuais do mercado livre podem ser subutilizadas.
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Benefícios estratégicos da visão unificada
A centralização da gestão de energia proporciona benefícios estratégicos que vão muito além da simples redução de custos ou da otimização administrativa. A capacidade de ter uma visão unificada e em tempo real do consumo permite um planejamento de longo prazo muito mais preciso e assertivo.
A empresa pode, por exemplo, correlacionar o consumo de energia com sua receita, número de clientes ou produção em tempo real, entendendo profundamente sua intensidade energética e como ela varia entre as filiais.
Essa visão consolidada é a base indispensável para projetos de investimento em geração distribuída, eficiência de equipamentos (como climatização ou refrigeração) ou para a definição de metas esg (ambiental, social e governança) realistas. A previsibilidade orçamentária, garantida por contratos de energia com preços fixos e em reais no mercado livre de energia, blinda o caixa da empresa contra a volatilidade das bandeiras tarifárias e dos reajustes anuais do mercado cativo, protegendo as margens do negócio.
Dê o primeiro passo para a gestão unificada
A complexidade de gerenciar dezenas ou centenas de faturas de energia e a imprevisibilidade das bandeiras tarifárias não precisam mais ser a realidade da sua empresa. A verdadeira centralização, que combina economia, previsibilidade e tecnologia, é alcançada no mercado livre de energia.
A Lead Energy é uma energytech que utiliza tecnologia de ponta para simplificar a migração e a gestão de energia para empresas com múltiplas unidades. Através da nossa plataforma, unificamos sua gestão e atuamos como seu representante varejista, eliminando a burocracia e permitindo que você foque no que realmente importa: o crescimento do seu negócio.
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Perguntas Frequentes
Minhas unidades estão em estados diferentes. Posso centralizar a compra de energia mesmo assim?
Sim, o mercado livre de energia opera a nível nacional dentro do sistema interligado nacional (sin), que cobre a maior parte do brasil. Você pode ter um único contrato de energia para atender unidades no nordeste e no sudeste, por exemplo, pagando apenas as tarifas de uso da rede (tusd) locais para cada distribuidora.
O que é um comercializador varejista?
É uma empresa comercializadora de energia que assume toda a representação e burocracia do consumidor junto à ccee (câmara de comercialização de energia elétrica). O varejista é ideal para empresas multiunidades, pois ele compra a energia no mercado, assume os riscos e emite uma única fatura simplificada para o cliente.
Preciso instalar medidores especiais em todas as unidades?
Sim, para migrar para o mercado livre de energia, cada unidade consumidora precisará de um medidor adequado ao sistema de medição para faturamento (smf) da ccee, capaz de medir o consumo hora a hora.
O que é “comunhão de cargas”?
É o mecanismo regulatório da aneel que permite a soma das demandas contratadas de diferentes unidades consumidoras para atingir o limite mínimo exigido para a migração ao mercado livre de energia. Essa comunhão pode ser “de direito” (mesmo cnpj raiz, como matriz e filiais) ou “de fato” (mesma localidade, mesmo sem ligação societária). É uma forma de viabilizar a migração para empresas com unidades menores.
Um software de gestão (SGE) é o mesmo que migrar para o mercado livre?
Não, são coisas diferentes, mas complementares. O sge é um software para monitorar e gerenciar o consumo de energia em tempo real, enquanto o mercado livre de energia é o ambiente de negócios onde se negocia a compra da energia.
Quais os primeiros passos para centralizar minha gestão de energia?
O primeiro passo é realizar um estudo de viabilidade, que analisa todas as faturas de energia das suas unidades para identificar o perfil de consumo agregado e o potencial de economia. Em seguida, deve-se verificar a elegibilidade regulatória para a migração ao mercado livre de energia, preferencialmente através de um comercializador varejista. Paralelamente, inicia-se a cotação de plataformas de gestão (sge) para o monitoramento.
Fontes
ABRACEEL – Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia. Mercado livre de energia: o que é e como funciona. Disponível em: https://www.abraceel.com.br/mercado-livre-de-energia-o-que-e-e-como-funciona/
ABRACEEL – Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia. Modalidade Varejista. Disponível em: https://www.abraceel.com.br/modalidade-varejista/
Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). Resolução Normativa nº 1.000, de 7 de dezembro de 2021. (Estabelece as Regras de Prestação do Serviço Público de Distribuição de Energia Elétrica e as condições gerais de contratação de uso do sistema de distribuição). Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-normativa-aneel-n-1.000-de-7-de-dezembro-de-2021-366016186

